ESCRITORES PARCEIROS
ESCRITORES PARCEIROS
Ricardo Tavares
Há quem acredite que as ciências e as humanidades vivem em lados opostos de um abismo. Ricardo Tavares, natural de Vila Franca do Campo (Ilha de São Miguel, Açores, 1974), passa a vida a construir pontes sobre esse precipício — e, de vez em quando, dança nele.
É engenheiro electrotécnico e de computadores pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, mestre em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, com pós-graduação em Data Science e Machine Learning pela Universidade de Barcelona. Ao mesmo tempo, é licenciado em teologia pela Universidade Católica Portuguesa e doutorado em Exegese Bíblica pela Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt, com uma tese publicada na série suiça Orbis Biblicus et Orientalis sobre a influência da sabedoria egípcia na formação da Bíblia. Estudou hieróglifos e arqueologia na École Biblique de Jerusalém.
Para Ricardo, não há conflito entre estas duas faces. Todo o conhecimento tem a mesma fonte — o Logos primevo donde provêm todas as logias (ciências) e todas as letras (literaturas). Os hieróglifos são como um código informático. E o processamento de Língua Natural que realiza com modelos de Inteligência Artificial tem, no fundo, a mesma atitude de descodificar mistérios antigos.
O leitor ideal das suas obras é o que se equilibra e balança nesta fronteira, sem palas. Alguém que consigue habitar, ao mesmo tempo, o rigor de um algoritmo e a vertigem de um salmo. Alguém que não tem medo de que um engenheiro escreva poesia ou de que um místico treine modelos de deep learning para detectar anomalias em sistemas.
Ricardo Tavares já publicou dois apólogos poéticos:
- As Gotas (Angra do Heroísmo, 1996) — a água.
- O Mistério do Folião (Vila Franca do Campo, 2005) — o fogo.
Seguiu-se O Verme de Deus (2019), primeiro volume da colecção Cristopoética — a terra.
Faltará o ar... Algo sobre o sopro, o espírito, o mistério, o que não se vê, mas tudo move.
Além da escrita literária, trabalhou como professor de Ética e IT em escolas dos Açores, foi investigador e professor na Universidade Católica Portuguesa. É também Cientista de Dados e Engenheiro AI: desenvolve digital twins, agentes, modelos de machine learning e sistemas de análise de linguagem.
As literaturas duras dos tempos místicos são as suas leituras secretas. O que isso significa? Apenas sugere que, por vezes, o código mais antigo é também o mais futuro.
Traz consigo a exatidão do engenheiro, a escuta do exegeta, a disciplina do karateca e a respiração do poeta. Escreve como quem decifra — e decifra como quem reza.
No fundo, a sua biografia não é uma lista de títulos, mas uma pergunta: E se a sabedoria do Antigo Egipto, o silêncio de um algoritmo bem treinado e uma gota de poesia fossem a mesma coisa?